2 de set. de 2013

Quebra de padrões de gênero na educação

Há mais ou menos 5 meses comecei a atuar como professora na Educação Infantil, mais precisamente com os alunos de 3 anos de idade. Faixa etária em que começam a superar o egocentrismo e iniciam uma melhor socialização e companheirismo; também começam a entender sobre normas, aceitam e compreendem regras e combinados; interiorizam aprendizados; tem início no raciocínio matemático; e capacidade para classificar as coisas.
As Escola Infantis do Município de Araraquara funcionam por meio de rodízio. Todos os dias as professoras e agentes educacionais rotacionam por dois ambientes diferentes, divididos pelo horário da merenda. Um dos espaços que tem na escola, é a chamada sala de Multimeios, é a maior sala da escola, onde se encontram a televisão, o aparelho de dvd, fantoches, fantasias diversas, espelho, instrumentos musicais e uma infinidade de brinquedos. Tenho este espaço 2 vezes por semana, e como é de minha responsabilidade manter a sala organizada, toda vez que vamos para lá oriento as crianças a pegarem apenas aqueles brinquedos que permitirei no dia.
No início eu dizia assim: Hoje os meninos poderão brincar com os fusquinhas e a caixa de ferramentas, e as meninas poderão brincar com os carrinhos de bonecas e a geladeira, fogão, etc.
Fazia isso não porque queria reproduzir um padrão imposto por nossa cultura machista, mas porque aquilo estava incutido na minha educação, na minha vivência, na minha experiência de vida, enfim, estava presente na minha consciência de um modo que parecia "a ordem natural das coisas" no dia-a-dia.
Levei um belo dum tapa na cara quando vi as meninas fascinadas pelas ferramentas, os meninos passeando com carrinhos de bonecas e dizendo que elas são lindas, brincando com copinhos, pratinhos e panelinhas, abrindo e fechando a geladeira, brincando de cabeleireiros na penteadeira, etc.
Esta atitude deles fez com que eu repensasse minha prática. Comecei a tentar controlar minhas palavras na hora de distribuir os brinquedos, tento sempre cortar a parte em que digo "hoje os meninos brincarão com x coisa e as meninas com y coisa", tento dizer "hoje será permitido brincar com x, y e z" sem definir quem poderá brincar com o quê. Apesar de ser muito simples, às vezes escapa o modo errôneo de falar, mas tento cada vez mais me atentar para isso.
Depois que fiz esta reflexão simples de que os meninos gostam de brincar com os brinquedos direcionados para as meninas e vice-versa comecei a questionar não só a minha postura, mas sim a postura dos fabricantes de brinquedos. Todos aqueles brinquedos que são direcionados para meninas são feitos em tons de rosa ou roxo, ou as duas cores juntas: berços, carrinhos de bonecas, micro-ondas, geladeira, fogão, lavadora de roupa, tábua de passar, pratos, copos, panelas, TUDO, TUDO, TUDO rosa e roxo!
Já os brinquedos direcionados para os meninos são os caminhões, fusquinhas, carrinhos de pato, ferramentas, e eles costumam ser verde, azul, amarelo, vermelho, preto e marrom.
A vida já é tão seccionada, devemos permitir que ela fique ainda mais, dividindo os brinquedos por gênero, dividindo os brinquedos por cor, dividindo os gêneros por cor, dividindo as cores? Até quando continuaremos dividindo, dividindo e dividindo? E permitindo que as coisas se dividam? E permitindo que tudo isso pareça normal e correto?
Como professora, me encontro num impasse, por mais que eu esteja mudando minha postura, dizendo que meninos e meninas podem brincar com o que quiserem, as diferenças estão lá, as cores estão lá, a divisão está lá dizendo para eles o contrário.
É frustrante, pois não sei como trabalhar a desconstrução dos padrões de gênero, sendo que diariamente os alunos são bombardeados por desenhos, mochilas, escovas de dente e brinquedos que dizem o contrário do que eu gostaria de dizer para eles.
Seria tão mais fácil eles perceberem com 3 anos aquilo que demorei 20 para refletir. Não sou a salvadora da nação, não é só minha responsabilidade quebrar padrões, mas às vezes me sinto tão perdida diante de tais situações que não sei por onde começar me sinto uma gota de água no oceano.
Eis aqui um desabafo sobre a prática do profissional de educação infantil, que muitas vezes é subestimado por outros profissionais que alegam ser fácil lidar com crianças pequenas, que basta suprir as necessidades físicas de quem ainda é dependente, como se não tivéssemos nenhuma responsabilidade social, como se as creches fossem apenas depósito de crianças e as educadoras meras babás ganhando dinheiro fácil.

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